quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Joselina's memories, part 1
Faz um tempo que preciso falar. Mas eu não quero falar com ninguém. Bem, esse falar vem junto de um questionamento... Como a gente segue em frente depois que alguém nos deixa? Eu não passo meus dias em luto total, não deixo de comer, sair ou viver. Mas eu sinto um vazio que dói todo vez que o olho de perto. Não sei se ele estava aí o tempo todo e eu só fui notar agora ou se é consequência de sua partida. Eu suponho que ele sempre esteve aí e eu não me dava conta porque tinha com quem falar e chorar sobre ele. Não sei se é, não sei se não... Agora não importa, o relevante é que ele está aqui e eu preciso cuidar disso, sozinha. E pra falar sobre isso, sobre partida, eu tenho, eu devo falar sobre a minha avó. Meu Deus, como ela ainda era nova... Eu tinha tantos planos, como sair do país pela primeira e ser a sua primeira vez também fora daqui, você ver eu me formando, me casando e segurando meus filhos no colo... Assim como foi a primeira a me pegar no colo, gostaria que fosse a primeira a segurar meus filhos. Dói pensar que nada disso vai acontecer. Dói pensar que eu posso não ter feito nada de relevante pra sua vida. Você passou ela inteira aqui, num mesmo país. O mais longe que você já havia chegado era a "Fronteira", como você sempre dizia. Será que você foi feliz assim? Será que sua vida valeu a pena? Será que você conseguiu olhar pra ela no final e ter tido algum prazer no que você viveu? E se foi feliz, será que eu fui pelo menos um pouquinho responsável por isso? Nunca vou saber.
Eu tinha tanto medo de te perder... Lembro que quando perdi a vó Maria, pensei: "Meu Deus, eu não dei atenção que ela merecia, eu nunca disse que a amava e agora nunca mais vou dizer!" E a partir daí eu prometi pra mim mesma que não cometeria o mesmo erro com você. Eu me dediquei. Mesmo que não houvessem exemplos, eu aprendi a dizer que te amava, aprendi a ser sua companheira e fiz de você além de família, minha melhor amiga. A gente ria, a gente brigava, cantávamos mesmo que fora do tom e o mais importante, estávamos sempre lá um pra outra.
Lembro quando você nos deu o primeiro susto... Eu ainda era pequena e você infartou. E o pior, eu não pude fazer nada. Ainda era muito pequena pra ir ao hospital e tudo que eu podia fazer era esperar. Até que finalmente você voltou pra casa, ufa. Lembro da minha mãe dizendo que eu deveria ter muito cuidado com você, que você e seu coração estavam frágeis. Peguei o "Juninho" e coloquei atrás das suas costas. Não foi grande coisa mas eu não me esqueço disso. Aos poucos a rotina foi voltando ao normal e estávamos sempre juntas.
Algum tempo depois, quando eu estava perto dos 11 anos nos mudamos. Eu, minha mãe e minha irmã no apartamento do andar debaixo e você no andar de cima, 402. Eu não gostava daquele lugar, nem você. Lembro de você triste, querendo poder fazer sua caminhada num lugar tranquilo, conversar com suas amigas, ir buscar e levar a capela de oração e conservar o pouco da independência que ainda lhe restava. Mas infelizmente, como você dizia, em apartamento ninguém era amigo de ninguém. As pessoas eram apenas vizinhas umas das outras.
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