Certa vez fui ao parque com uns amigos e enquanto caminhávamos havia um pequeno córrego desaguando no rio ou lago, desculpe a ignorância. Ao passar, eles disseram que deveríamos jogar uma moeda e fazer um pedido. Eu fiz. Eles brincaram “don’t ask for silly things as happiness”. Aquilo não era uma coisa boba pra mim. Mas não, não pedi por felicidade. Pedi pra sentir alegria em estar viva novamente. Pedi pra sentir. Pedi tanto que acho que transbordei. Me sinto tão viva agora, apesar de em certos momentos só gostaria de não existir. Momentos esses que tem oscilado bastante, 8 ou 80: sou muito grata e sentimental por tudo ou sou muito sentimental e quero não estar viva. Sinto tanto, sinto muito. Acho que em certos momentos chega a estar em carne viva, sangra. Empatia nunca foi o problema. O problema sempre foi absorver demais tudo de todos, não saber filtrar e sentir em mim, o que os outros sentem. Às vezes acho que sou abençoada por saber o que os outros sentem, por conseguir entender certas dores e acima de tudo, por aprender a respeitar como devem ser. Às vezes não me sinto tão abençoada, me sinto sufocada. Eu sei mas o que eu posso fazer além de entender? Não sei como ajudar. Isso me destrói.
Outra coisa que me trouxe esse pensamento, foi meu pai. Meu Deus, como dói pensar. Eu tenho que respeitar as decisões da minha irmã, ela sente e sabe de coisas que eu não sei, quem sou eu pra transpor os limites dela. Mas ela não sabe nem se vai o convidar pro seu casamento... Não, ele não vai entrar no altar com ela. Não sei o que seria pior, não ir ao casamento da filha ou ir e vê-la entrando acompanhada por outro cara, que deveria ser você. Você é o pai, você fez. Mas você também causou danos irreparáveis. Você não foi tão pai quanto deveria ser. Você estava lá mas você não cuidou. Você esteve presente mas não era o provedor da família. Eu sei que isso deve matar a alma de um homem. Perder a família, morar num cubículo quando antes você tinha uma boa casa. Mendigar comida quando antes você comia do melhor. Porque alguém te provia, alguém cuidava de você. Mas você falhou? Será que você carrega a dor de não ter sido suficiente? Não sei, mas pensar nisso me machuca tanto...
É por isso que, pai, que mesmo tudo isso tendo acontecido, mesmo tanta coisa, eu nunca vou te deixar. Eu sou sua família e eu prometo, que sempre vou te cuidar e te dar o meu melhor. Eu vou te dar tudo aquilo que você nunca teve, eu vou te fazer um rei. Nunca, nunca mais ninguém vai pisar em você ou te diminuir. Eu tomo suas dores, eu carrego o fardo com você, sozinho você nunca vai estar enquanto eu existir. Você vai ser quem vai dançar valsa comigo na minha formatura, você vai me levar ao altar, você vai ver seus netos crescerem de perto e vai ensinar pra eles tudo que me ensinou.
Sabe, pai, eu poderia passar horas reclamando das coisas que não tive de você mas eu prefiro agradecer a Deus pela sua vida, porque apesar de tudo, você sempre esteve presente. Você sempre foi meu melhor amigo, você me ensinou muito sobre tudo. Ou um pouco sobre tudo, talvez. Você me ensinou a levar a vida de forma mais leve, você me ensinou a gostar mais do simples, do café com leite e pudim de pão. Você é todo musical. Você não leva nada a sério (e isso é bem ruim também, viu). Você topa tudo, é companhia pra qualquer negócio. Obrigada, pai, eu amo você.
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